quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Infância e velhice atadas pela literatura infantil

   



"O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência". (Machado de Assis)




A velhice é um tema antigo e recorrente na literatura infantil, entretanto esse momento da vida não é representada da mesma maneira, sendo influenciada por fatores sociais, culturais, políticos e, principalmente, econômicos. Por estar retratada de forma multifacetada, o tema torna-se de grande potencial para estudos que investiguem as diferentes representações de senilidade nos textos literários. Este trabalho percorre essa vereda à luz da teoria das representações sociais com base num corpus de 70 obras literárias infantis brasileiras contemporâneas.

Nos últimos anos, o conceito de representação social tem aparecido com grande freqüência em diversas áreas, pois é uma temática que perpassa todas as ciências humanas. Com sua origem nos estudos sociológicos de Emile Durkheim, é na Psicologia Social que a teoria das representações sociais vai ser desenvolvida.

Serge Moscovici lança em La Psycanalyse, son image, son public, publicado em 1961 a matriz da teoria das representações sociais, que só receberá ênfase a partir do início dos anos 80. A proposta é trabalhar com o pensamento social de maneira dinâmica e em sua diversidade, a fim de entender como os indivíduos constroem-se a partir da inserção social e como tornam-se agentes da constituição de sua própria realidade (MOSCOVICI, 1978: 35).

Moscovici conceituou representação social como processo de assimilação e construção da realidade pelos indivíduos. Dessa forma, ele estabelece uma relação maior entre indivíduo e sociedade, não considerando representação social como uma imposição como propusera Durkheim. À luz do mito da caverna de Platão, toda representação (tornar presente de novo) é uma forma de visão da realidade, uma interpretação. As representações sociais são culturalmente construídas, mas não são estáticas uma vez que os atores sociais podem interagir nesse processo.

As pessoas também criam representações individuais, que podem ratificar ou não as representações socialmente constituídas. Por conta disso, deve-se entender os leitores (tomados aqui em seu sentido mais amplo - leitores do mundo) como seres críticos e aptos à assimilação e também à mudança em relação a esses paradigmas sociais.

Na literatura, as representações podem ser consideradas como produção cultural, na medida em que realçam os signos de uma sociedade e determinam limites entre o desejável e o indesejável. Por isso mesmo tornam-se um dos elementos mais significativos para a formação do ideário nacional, porque atuam na sua construção, difusão e alteração. Com essa dimensão, percebe-se a íntima relação entre palavra e poder, porque as representações sociais podem manter e/ou reforçar uma posição determinada por um grupo específico dominante ou até mesmo transformá- las.

Entre os séculos XVI e XVII, houve o nascimento da sociedade moderna e com ela o surgimento do status de infância. Até então, as crianças eram somente adultos em miniatura, sem distinções de sinais culturalmente reconhecidos como roupas ou atividades especiais, por exemplo. Já a literatura infantil apareceu durante o século XVII, época em que há mudanças na estrutura da sociedade, com a ascensão da família burguesa. A emergência dessa literatura associa-se, desde as origens, a uma função utilitário-pedagógica, já que as histórias eram elaboradas para se converterem em divulgadoras dos novos ideais burgueses.

Até bem pouco tempo, a literatura infantil era considerada como um gênero secundário, vista pelo adulto como algo pueril (nivelada ao brinquedo) ou útil (forma de entretenimento). A valorização da literatura infantil, como formadora de consciência dentro da vida cultural das sociedades, é bem recente. Com base nessas considerações, pode-se depreender o poder da literatura infantil, pois apresenta um potencial de manipulação de ideologias em formação.

Essa literatura esteve durante praticamente todo seu percurso histórico a serviço de ratificar as representações sociais canônicas que valorizavam a heterossexualidade, os princípios ocidentais sobretudo europeus, o capitalismo, a cor branca, a religião católica e a busca da eterna juventude. É nesse sentido que Simone de Beauvoir denuncia a "conspiração do silêncio" de alguns grupos sociais que perpetuam uma imagem da velhice como fase temida e apavorante da vida (BEAUVOIR, 1990: 79).

O conceito de velhice depende de vários fatores, notadamente de referencial social e psicológico. No Brasil, a faixa etária limite para ingresso oficial na categoria 3ª idade é de 65 anos. A humanidade, por seu ideal de eterna juventude, acaba por dividir a vida em ser mais ou menos jovem, negando a velhice e evitando-a o quanto mais, numa associação com a morte.

A população idosa mundial tem crescido de modo significativo, redesenhando o perfil etário dos países e, conseqüentemente, promovendo adaptações sociais necessárias. No caso de países em desenvolvimento, como o Brasil, a pirâmide etária revela um aumento significativo de pessoas idosas. Os indicadores sociais denunciam graves problemas estruturais no Brasil para lidar com esse novo perfil etário. Tal situação agrava a idéia de afastamento da senilidade, pois tem sido o lugar ocupado pelo sujeito no sistema de produção que espelha a posição social que cada um detém.

Em função da crescente preocupação com a velhice, as obras literárias espelham a pluralidade de papéis sociais assumidos pela chamada terceira idade. A constituição da idéia de velhice no Brasil está em franco processo e reflete-se em todas as manifestações do pensamento humano, inclusive a literatura. Diante da análise do corpus, foi possível identificar algumas representações a que a velhice está associada na literatura infantil brasileira. Serão propostos os principais papéis depreendidos:

SOZINHO E COMPANHEIRO DE AVENTURAS

Muitos idosos brasileiros vivem sós enquanto outros estão em companhia de suas famílias, mas essa condição não é garantia de satisfação. Isso se deve ao fato de a pessoa de mais idade não ter garantidos sua autonomia e seu papel dentro da família. Muitos são tratados como agregados aos quais não cabe qualquer poder de decisão perante a família.

Manoel de Barros em seu livro Fazedor de amanhecer (2001) fala do abandono em um poema chamado "Avô":

Meu avô dava grandeza ao abandono.

Era com ele que vinham os ventos a conversar

Sentava-se o velho sobre uma pedra nos fundos do quintal

E vinham as pombas e vinham as moscas a conversar.

Saía do fundo do quintal pra dentro da casa

E vinham os gatos a conversar com ele.

Tenho certeza que o meu avô enriquecia a palavra abandono

Ele ampliava a solidão dessa palavra.

O livro Molecagens do vovô, de Márcio Trigo (1998), é um exemplo desse papel. Em função de não possuírem voz, avô e neto tornam-se muito próximos, amigos íntimos, cúmplices de molecagens. A história mostra bem a questão do sustento sendo usada contra a velhice como uma garantia de poder e de voz. A fuga do avô para não causar mais problemas à filha e ao genro assemelha-se às atitudes infantis. O único que dá atenção ao idoso da casa, entende suas dificuldades, oferece-lhe apoio é o neto e grande parceiro de brincadeiras.

Para não se sentirem sós, muitos idosos vivem em função de animais de estimação ou à espera da visita dos netos com sua vivacidade. Assim, há todo um ritual de confecção de doces, construção de brinquedos e concessões para as crianças. São muitos os livros que mostram esse processo de preparação e ansiosa espera. Nesse sentido, a casa dos avós torna-se uma espécie de parque de diversões, com o fascínio infantil pelo culto à memória de cada objeto que guarda uma história. Os livros Casa de vó (1994), de Guiomar Paiva Brandão, A cristaleira (1999) de Graziela Bozano Hetzel e Bisa Bia, bisa Bel (1985), de Ana Maria Machado, registram bem esse mundo fascinante.

Vovó quer namorar (1990) de Maria de Lourdes Krieguer tematiza a vaidade da avó Frosina e a repressão da filha que diz não serem hábitos de "velha de respeito" cuidar da aparência e enfeitar-se. A neta de Frosina redescobre em sua avó uma grande companheira que não morreu para a vida, menos ainda para o amor.

SÁBIO E CONTADOR DE HISTÓRIAS

Com o advento da sociedade burguesa, a representação de extrema sabedoria associada à velhice foi perdendo o ar de sacralidade. A partir do referencial histórico, essa representação da velhice sábia remonta aos contos tradicionais como um resgate da imagem do contador de histórias (Contos da Mamãe Gansa). Apesar da extrema valorização da informação e com as mudanças tecnológicas constantes, essa imagem da velhice como fonte de sabedoria se mantém presente na literatura.

Nessa linha, não se pode deixar de resgatar D. Benta de Lobato e a Velha Totônia de José Lins do Rego, exímias contadoras de histórias a quem cabe a função indireta de educadoras. Com seus conselhos e conversas, a velhice assume o papel difusor das tradições e mantenedor do referencial cultural daquele grupo social. Diante da corrida da vida moderna, o tempo dos adultos para ouvir as fabulosas histórias da família torna-se cada vez menor. As crianças desejam inserir-se nessas histórias familiares, deixar também sua marca naquele grupo a que pertencem para virarem histórias no futuro. Então faz-se a união perfeita: quem tem muitas memórias a reviver e tempo para contá-las com quem está ávido por ser e ter memórias e tem tempo para ouvi-las.

O livro Por parte de pai, de Bartolomeu Campos de Queirós (1995), revela a admiração de um menino do interior por seu avô, que registrava a história da cidade nas paredes. Tatiana Belinky em seu livro autobiográfico Bidínsula e outros retalhos (1990) estabelece um elo entre os momentos vividos e pedaços de retalhos que integram uma grande colcha de retalhos que é a vida. Em Minha avó foi um bebê (2000) de Paula Sandroni, a neta faz uma verdadeira viagem ao passado através das fotografias da avó e resgata os costumes daquela época, como também faz No tempo de meus avós (2000), de Nye Ribeiro.

Como a imigração faz parte da constituição social brasileira, há também alguns títulos que enfatizam as referências culturais dos países de origem de idosos. As histórias de outras culturas são um convite à imaginação dos netos desses imigrantes como ocorre em Uma vovó italiana (1996) e Vovô nasceu em Portugal (1998), ambos de Guilherme Del Campo e Marilda Del Campo.

REGISTRO E PERDA DE MEMÓRIA

Ecléa Bosi em Memória e sociedade: lembrança de velhos (1987) trata a relação do envelhecimento com as sociedades de forma bastante competente. Nesse livro de referência para estudos sobre memória e velhice, a autora entende a função social da velhice com o lembrar associado ao aconselhar - "memini moneo" - portanto a memória é o grande tesouro da velhice.

Segundo o conceito freudiano de memória, o passado retomado é recriado onde atuam componentes imaginativos, daí a necessidade de verbalizar as histórias por parte dos velhos. Percebe-se, além da preocupação de manutenção dessa memória cultural, uma preocupação com a perda da capacidade de relembrar fatos passados.

Henri Bergson distingue memória hábito ou orgânica, ligada a ações habituais, e memória-lembrança ou psíquica, ligada às emoções que retoma o passado mediante ligações. A grande preocupação na velhice é a perda dessa memória-lembrança e todos os elos afetivos que ela representa. O livro Colcha de retalhos (1995) de Conceil Corrêa da Silva e Nye Ribeiro Silva conta a história de um menino e sua avó que criam uma colcha-memória, daquelas que não se encontra a venda em lojas. A afetividade é o elo entre infância e velhice juntas na empreitada de registrar fora dos limites do psíquico a memória que se quer guardar como um tesouro precioso.

Há livros que retratam também a agonia da perda paulatina da capacidade mnemônica, como A vovó distraída (1991) de Regina Lúcia Pires Nemer. O eufemismo na escolha do adjetivo "distraída" não dramatiza a questão na história dessa senhora que é chamada de louca porque confunde um cão com um leão que leva para passear. Os netos não se abalam com os esquecimentos e freqüentes trocas da avó, até se divertem com eles. É esse mesmo adjetivo "distraída" que Tatiana Belinky usa em A alegre vovó Guida que é um bocado distraída (1988), para retratar as trocas que a senhora faz no seu cotidiano: coloca leite no sapato, peruca no pé, óculos na sopa etc. Tais confusões também não são apresentadas como um problema e sim como um motivo de galhofa.

BRUXOS E MISTERIOSOS

A imagem de várias bruxas dos contos tradicionais povoam o imaginário desde os contos tradicionais da Idade Média. Perrault e os Irmãos Grimm em diversas histórias registraram essas figuras perigosas e assustadoras, como a bruxa de João e Maria ou a madrasta de Branca de Neve.

No livro A mãe da mãe da minha mãe (1988) de Terezinha Alvarenga, a imagem da velhice associada a uma bruxa é desfeita com a aproximação da menina de 5 anos e sua bisavó. A figura da querida bisa assusta: "De casaco escuro, saia preta, meias grossas, sapatos de lã fechados, mais curvada que galhos de café, surgiu das sombras uma corcunda de tanto tempo e cabelos enrolados em coque. (...) aqueles olhos brilharam no escuro" (ALVARENGA, 1988: 13).

Parece haver uma construção social de medo até em imagens de cultura popular como o velho do saco, daí a dificuldade de visualização. Em O velho que trazia a noite (1995) de Sérgio Capparelli, a figura do velho é sinistra e conta com uma perna de pau. A mãe do menino diz ser esse velho que traz a noite e o menino associa essa figura ao tal velho do saco da cultura popular. Quando há um eclipse e a morte do velho, o menino se emociona com a noite e acredita que o velho tinha razão em trazer a noite e seus mistérios.

Na cultura ocidental, a morte não é recepcionada com naturalidade e sim como uma perda, fonte de sofrimento. Com essa preocupação, várias obras infantis problematizam a morte de pessoas mais velhas, em especial os avós. O inconformismo diante do afastamento dos avós é bem vivificado no livro Anúncio de jornal (1996), de Regina Siguemoto. O menino coloca um anúncio no jornal para procurar a avó porque sente saudades, mesmo tendo a mãe dito que a avó agora está morando no céu. As frases finais são permeadas da tristeza da perda diante de um passado feliz que ficou na memória do neto: "Eu ainda não cresci muito, não sei das coisas como você. Volta, Vó!" / "Vó, agora vou parar, pra você eu conto, tô chorando..." (SIGUEMOTO, 1996: 17)

Essa problemática de enfrentamento da morte pela criança acaba recebendo uma conotação poética em muitos textos. É o que acontece em Uma vez uma avó (1992) de Luís Pimentel, história reveladora de uma figura enrugada, de peitos murchos com o sorriso sem dentes mais bonito do ocidente. A senhora ativa em afazeres, cuida de galinhas, porcos e cabras, maneja enxada e ainda toma conta dos netos. A narração da morte da velha é bem simbólica e as frases finais revelam esse viés: "No dia que a avó se tornar uma vez, fica mais perto de vocês" (PIMENTEL, 1992: 11).

Ana Maria Machado problematiza essa representação social mística associada à velhice e que gera medo nas crianças em seu livro A velha misteriosa (1994). Um grupo de meninos ficava em frente à casa da senhora e viram-na mexendo um caldeirão. Como um reflexo dessa imagem culturalmente construída, associaram a senhora a uma bruxa de imediato. Só se desfaz essa imagem quando uma das crianças resolve ir à casa da senhora, pois afirma que não conhece uma velha que não seja boazinha. No final, descobre-se que Tia Dolinha era uma doceira que aumentava sua renda com essa atividade que dependia do caldeirão. Os meninos passam a ajudá-la na árdua tarefa e partilham do prazer de saborear os excelentes doces e as histórias que Dolinha tem a oferecer. Indiretamente, percebe-se o registro de que a velhice ainda trabalha durante a aposentadoria para complementar a renda da aposentadoria.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo da literatura infantil, se é que se pode restringir com qualquer adjetivo essa forma de arte, pelo seu papel de iniciar o ser humano no mundo literário, deve ser um instrumento para a sensibilização da consciência, para a expansão da capacidade de analisar o mundo, sem estar a serviço de qualquer interesse.

A partir dessas representações das pessoas idosas, constrói-se um imaginário social em que a velhice associa-se às perdas a ela relacionadas, ou transmite bondade e candura, com uma relação muito próxima com a infância. De um modo geral, tomando por base o corpus estudado, conclui-se que os valores apresentados pela literatura infantil refletem-se na formação de uma representação com conotações positivas.

Muito há que se fazer para se erradicar a "conspiração do silêncio" levantada por Simone de Beauvoir, mesmo junto ao público infantil. Livros que criam estereótipos da velhice sempre feliz e sem problemas não levam a uma visão crítica do que representa a velhice para a sociedade brasileira. Mesmo com a falta de senhoridade que muitas vezes se impõe à velhice, crê-se que é imprescindível resgatar o papel social da chamada terceira idade. Para isso, a literatura infantil oferece autores de sensibilidade para conciliar os problemas reais vividos nessa fase da vida com a fantasia, indispensável ao universo infantil.

Imaginar que livros de temática de morte não devem ser lidos por crianças para que sejam poupadas só afasta a infância de sua outra ponta, que Bentinho-Casmurro tanto queria atar na casa de Matacavalos. Com efeito, a principal colaboração desta investigação foi mostrar que a literatura infantil reflete essa afinidade entre velhice e infância. O desejo principal que fica aqui como um registro é de que se permita ao ser da velhice ocupar com honra o espaço que sempre foi seu: sabedoria por experiência. No desejo de que preservemos esse tesouro da memória coletiva, fica como registro uma frase de um africano para nossa reflexão: "Na África, quando um velho morre, é uma biblioteca que se queima".

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVARENGA, Terezinha. A mãe da mãe da minha mãe. Belo Horizonte: Miguilim, 1998.

ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Aguilar, 1959.

BARROS, Manoel de. O fazedor de amanhecer. Rio de Janeiro: Salamandra, 2001.

BELINKY, Tatiana. A alegre vovó Guida que é um bocado distraída. São Paulo: Editora do Brasil, 1988.

__________. Bidínsula e outros retalhos. São Paulo: Atual, 1990.

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembrança de velhos. São Paulo: T. A. Queiroz - Editora da Universidade de São Paulo, 1987.

BRANDÃO, Guiomar Paiva. Casa de vó. Belo Horizonte: Lê, 1994.

CAMPO, Guilherme Del e Marilda Del Campo. Uma vovó italiana. Sâo Paulo: Paulinas, 1996.

__________ . Vovô nasceu em Portugal. São Paulo: Paulinas, 1998.

CAPPARELLI, Sérgio. O velho que trazia a noite. Porto Alegre: Kuarup, 1995.

HETZEL, Graziela Bozano. A cristaleira. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.

KRIEGUER, Maria de Lourdes. Vovó quer namorar. São Paulo: FTD, 1990.

MACHADO, Ana Maria. Bisa Bia, bisa Bel. Rio de Janeiro: Salamandra, 1985.

__________ . A velha misteriosa. Rio de Janeiro: Salamandra, 1994.

MOSCOVICI, Serge. A representação social da psicanálise. Rio de Janeiro. Zahar, 1978.

NEMER, Regina Lucia Pires. A vovó distraída. Rio de Janeiro: Ed. Didática e Científica, 1991.

PIMENTEL, Luís. Uma vez uma avó. Belo Horizonte: Lê, 1992.

QUEIRÓS, Bartolomeu Campos. Por parte de pai. Belo Horizonte: RHJ, 1995.

RIBEIRO, Nye. No tempo de meus bisavós. São Paulo: Editora do Brasil, 2000.

SANDRONI, Paula. Minha avó já foi um bebê! São Paulo: Global, 2000.

SIGUEMOTO, Regina. Anúncio no jornal. São Paulo: Editora do Brasil, 1996.

SILVA, Conceil Corrêa da e Nye Ribeiro Silva. A colcha de retalhos. São Paulo. Ed. Do Brasil, 1995.

TRIGO, Márcio. Molecagens do vovô. São Paulo: Ática, 1998.

Livros e Infância


As histórias infantis como forma de consciência de mundo

                                                            CRISTIANE MADANÊLO DE OLIVEIRA. "LIVROS E INFÂNCIA" [online]

É no encontro com qualquer forma de Literatura que os homens têm a oportunidade de ampliar, transformar ou enriquecer sua própria experiência de vida. Nesse sentido, a Literatura apresenta-se não só como veículo de manifestação de cultura, mas também de ideologias.

A Literatura Infantil, por iniciar o homem no mundo literário, deve ser utilizada como instrumento para a sensibilização da consciência, para a expansão da capacidade e interesse de analisar o mundo. Sendo fundamental mostrar que a literatura deve ser encarada, sempre, de modo global e complexo em sua ambigüidade e pluralidade.

Até bem pouco tempo, em nosso século, a Literatura Infantil era considerada como um gênero secundário, e vista pelo adulto como algo pueril (nivelada ao brinquedo) ou útil (forma de entretenimento). A valorização da Literatura Infantil, como formadora de consciência dentro da vida cultural das sociedades, é bem recente.

Para investir na relação entre a interpretação do texto literário e a realidade, não há melhor sugestão do que obras infantis que abordem questões de nosso tempo e problemas universais, inerentes ao ser humano.

"Infantilizar" as crianças não cria cidadãos capazes de interferir na organização de uma sociedade mais consciente e democrática.

Fases normais no desenvolvimento da criança

O caminho para a redescoberta da Literatura Infantil, em nosso século, foi aberto pela Psicologia Experimental que, revelando a Inteligência como um elemento estruturador do universo que cada indivíduo constrói dentro de si, chama a atenção para os diferentes estágios de seu desenvolvimento (da infância à adolescência) e sua importância fundamental para a evolução e formação da personalidade do futuro adulto. A sucessão das fases evolutivas da inteligência (ou estruturas mentais) é constante e igual para todos. As idades correspondentes a cada uma delas podem mudar, dependendo da criança, ou do meio em que ela vive.

Primeira Infância: Movimento X Atividade (15/17 meses aos 3 anos)

• Maturação, início do desenvolvimento mental;

• Fase da invenção da mão - reconhecimento da realidade pelo tato;

• Descoberta de si mesmo e dos outros;

• Necessidade grande de contatos afetivos;

• Explora o mundo dos sentidos;

• Descoberta das formas concretas e dos seres;

• Conquista da linguagem;

• Nomeação de objetos e coisas - atribui vida aos objetos;

• Começa a formar sua auto-imagem, de acordo com o que o adulto diz que ela é, assimilando, sem questionamento, o que lhe é dito;

• Egocentrismo, jogo simbólico;

• Reconhece e nomeia partes do corpo;

• Forma frases completas;

• Nomeia o que desenha e constrói;

• Imita, principalmente, o adulto.

Segunda Infância: Fantasia e Imaginação (dos 3 aos 6 anos)

• Fase lúdica e predomínio do pensamento mágico;

• Aumenta, rapidamente, seu vocabulário;

• Faz muitas perguntas. Quer saber "como" e "por quê ?";

• Egocentrismo - narcisismo;

• Não diferenciação entre a realidade externa e os produtos da fantasia infantil;

• Desenvolvimento do sentido do "eu";

• Tem mais noção de limites (meu/teu/nosso/certo/errado);

• Tempo não tem significação - não há passado nem futuro, a vida é o momento presente;

• Muitas imagens ainda completando, ou sugerindo os textos;

• Textos curtos e elucidativos;

• Consolidação da linguagem, onde as palavras devem corresponder às figuras;

• Para Piaget, etapa animista, pois todas as coisas são dotadas de vida e vontade;

• O elemento maravilhoso começa a despertar interesse na criança.

Dos 6 aos 6 anos e 11 meses, aproximadamente

• Interesse por ler e escrever. A atenção da criança esta voltada para o significado das coisas;

• O egocentrismo está diminuindo. Já inclui outras pessoas no seu universo;

• Seu pensamento está se tornando estável e lógico, mas ainda não é capaz de compreender idéias totalmente abstratas;

• Só consegue raciocinar a partir do concreto;

• Começa a agir cooperativamente;

• Textos mais longos, mas as imagens ainda devem predominar sobre o texto;

• O elemento maravilhoso exerce um grande fascínio sobre a criança.

Histórias para crianças (faixa etária / áreas de interesse / materiais / livros)

1 a 2 anos

A criança, nessa faixa etária, prende-se ao movimento, ao tom de voz, e não ao conteúdo do que é contado. Ela presta atenção ao movimento de fantoches e a objetos que conversam com ela. As histórias devem ser rápidas e curtas. O ideal é inventá-las na hora. Os livros de pano, madeira e plástico, também prendem a atenção. Devem ter, somente, uma gravura em cada página, mostrando coisas simples e atrativas visualmente. Nesta fase, há uma grande necessidade de pegar a história, segurar o fantoche, agarrar o livro, etc..

2 a 3 anos

Nessa fase, as histórias ainda devem ser rápidas, com pouco texto de um enredo simples e vivo, poucos personagens, aproximando-se, ao máximo, das vivências da criança. Devem ser contadas com muito ritmo e entonação. Tem grande interesse por histórias de bichinhos, brinquedos e seres da natureza humanizados. Identifica-se, facilmente, com todos eles. Prendem-se a gravuras grandes e com poucos detalhes. Os fantoches continuam sendo o material mais adequado. A música exerce um grande fascínio sobre ela. A criança acredita que tudo ao seu redor tem vida e vivência, por isso, a história transforma-se em algo real, como se estivesse acontecendo mesmo.

3 a 6 anos

Os livros adequados a essa fase devem propor "vivências radicadas" no cotidiano familiar da criança e apresentar determinadas características estilísticas.

Predomínio absoluto da imagem, (gravuras, ilustrações, desenhos, etc.), sem texto escrito, ou com textos brevíssimos, que podem ser lidos, ou dramatizados pelo adulto, a fim de que a criança perceba a inter-relação existente entre o "mundo real", que a cerca, e o "mundo da palavra", que nomeia o real. É a nomeação das coisas que leva a criança a um convívio inteligente, afetivo e profundo com a realidade circundante.

As imagens devem sugerir uma situação que seja significativa para a criança, ou que lhe seja, de alguma forma, atraente.

A graça, o humor, um certo clima de expectativa, ou mistério são fatores essenciais nos livros para o pré-leitor.

As crianças, nessa fase, gostam de ouvir a história várias vezes. É a fase de "conte outra vez".

Histórias com dobraduras simples, que a criança possa acompanhar, também exercem grande fascínio. Outro recurso é a transformação do contador de histórias com roupas e objetos característicos. A criança acredita, realmente, que o contador de histórias se transformou no personagem ao colocar uma máscara, chapéu, capa, etc..

Podemos enriquecer a base de experiências da criança, variando o material que lhe é oferecido. Materiais como massa de modelar e argila atraem a criança para novas experimentações. Por exemplo, a história do "Bonequinho Doce" sugere a confecção de um bonequinho de massa, e a história da "Galinha Ruiva" pode sugerir amassar e assar um pão.

Assim como as histórias infantis, os contos de fadas têm um determinado momento para serem introduzidos no desenvolvimento da criança, variando de acordo com o grau de complexidade de cada história.

Os contos de fadas, tais como: "O Lobo e os Sete Cabritinhos", "Os Três Porquinhos", "Cachinhos de Ouro", "A Galinha Ruiva" e "O Patinho Feio" apresentam uma estrutura bastante simples e têm poucos personagens, sendo adequados à crianças entre 3 e 4 anos. Enquanto, "Chapeuzinho Vermelho", "O Soldadinho de Chumbo" (conto de Andersen), "Pedro e o Lobo", "João e Maria", "Mindinha" e o "Pequeno Polegar" são adequados a crianças entre 4 e 6 anos.

6 anos a 6 anos e 11 meses

Os contos de fadas citados na fase anterior ainda exercem fascínio nessa fase. "Branca de Neve e os Sete Anões", "Cinderela", "A Bela Adormecida", "João e o Pé de Feijão", "Pinóquio" e "O Gato de Botas" podem ser contadas com poucos detalhes.

Resumo

Faixa etária Textos Ilustrações Materiais

1 a 2 anos As histórias devem ser rápidas e curtas - Uma gravura em cada página, mostrando coisas simples e atrativas visualmente    Livros de pano, madeira, e plástico. É recomendado o uso de fantoches

2 a 3 anos As histórias devem ser rápidas, com pouco texto de um enredo simples e vivo, poucos personagens, aproximando-se, ao máximo das vivências da criança - Gravuras grandes e com poucos detalhes    Os fantoches continuam sendo o material mais adequado. Música também exerce um grande fascínio sobre a criança

3 a 6 anos Os livros adequados a essa fase devem propor vivências radicadas no cotidiano familiar da criança. Predomínio absoluto da imagem, sem texto escrito ou com textos brevíssimos. Livros com dobraduras simples. Outro recurso é a transformação do contador de histórias com roupas e objetos característicos. A criança acredita, realmente, que o contador de histórias se transformou no personagem ao colocar uma máscara.

6 ou 7 anos (fase de alfabetização) Trabalho com figuras de linguagem que explorem o som das palavras. Estruturas frasais mais simples sem longas construções. Ampliação das temáticas com personagens inseridas na coletividade, favorecendo a socialização, sobretudo na escola. Ilustração deve integrar-se ao texto a fim de instigar o interesse pela leitura. Uso de letras ilustradas, palavras com estrutura dimensiva diferenciada e explorando caráter pictórico.

Excelente momento para inserir poesia, pois brinca com palavras, sílabas, sons. Apoio de instrumentos musicais ou outros objetos que produzam sons. Materiais como massinha, tintas, lápis de cor ou cera podem ser usados para ilustrar textos.

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Origens da Literatura Infantil

"A LITERATURA INFANTIL" [online]

                                                                                            CRISTIANE MADANÊLO DE OLIVEIRA. 

O impulso de contar histórias deve ter nascido no homem, no momento em que ele sentiu necessidade de comunicar aos outros alguma experiência sua, que poderia ter significação para todos. Não há povo que não se orgulhe de suas histórias, tradições e lendas, pois são a expressão de sua cultura e devem ser preservadas. Concentra-se aqui a íntima relação entre a literatura e a oralidade.

A célula máter da Literatura Infantil, hoje conhecida como "clássica", encontra-se na Novelística Popular Medieval que tem suas origens na Índia. Descobriu-se que, desde essa época, a palavra impôs-se ao homem como algo mágico, como um poder misterioso, que tanto poderia proteger, como ameaçar, construir ou destruir. São também de caráter mágico ou fantasioso as narrativas conhecidas hoje como literatura primordial. Nela foi descoberto o fundo fabuloso das narrativas orientais, que se forjaram durante séculos a.C., e se difundiram por todo o mundo, através da tradição oral.

A Literatura Infantil constitui-se como gênero durante o século XVII, época em que as mudanças na estrutura da sociedade desencadearam repercussões no âmbito artístico.

O aparecimento da Literatura Infantil tem características próprias, pois decorre da ascensão da família burguesa, do novo "status" concedido à infância na sociedade e da reorganização da escola. Sua emergência deveu-se, antes de tudo, à sua associação com a Pedagogia, já que as histórias eram elaboradas para se converterem em instrumento dela.

É a partir do século XVIII que a criança passa a ser considerada um ser diferente do adulto, com necessidades e características próprias, pelo que deveria distanciar-se da vida dos mais velhos e receber uma educação especial, que a preparasse para a vida adulta.

As Mil e Uma Noites

Coleção de contos árabes (Alf Lailah Oua Lailah) compilados provavelmente entre os séculos XIII e XVI. São estruturados como histórias em cadeia, em que cada conto termina com uma deixa que o liga ao seguinte. Essa estruturação força o ouvinte curioso a retornar para continuar a história, interrompida com suspense no ar.

Foi o orientalista francês Antoine Galland o responsável por tornar o livro de As mil e uma Noites conhecido no ocidente (1704). Não existe texto fixo para a obra, variando seu conteúdo de manuscrito a manuscrito. Os árabes foram reunindo e adaptando esses contos maravilhosos de várias tradições. Assim, os contos mais antigos são provavelmente do Egito do séc. XII. A eles foram sendo agregados contos hindus, persas, siríacos e judaicos.

O uso do número 1001 sugere que podem aparecer mais histórias, ligadas por um fio condutor infinito. Usar 1000 talvez desse a idéia de fechamento, inteiro, que não caracteriza a proposta da obra.

Os mais famosos contos são:

•    O Mercador e o Gênio

•    Aladim ou a Lâmpada Maravilhosa

•    Ali-Babá e os Quarenta Ladrões Exterminados por uma Escrava

•    As Sete Viagens de Simbá, o Marinheiro

O rei persa Shariar, vitimado pela infidelidade de sua mulher, mandou matá-la e resolveu passar cada noite com uma esposa diferente, que mandava degolar na manhã seguinte. Recebendo como mulher a Sherazade, esta iniciou um conto que despertou o interesse do rei em ouvir-lhe a continuação na noite seguinte. Sherazade, por artificiosa ligação dos seus contos, conseguiu encantar o monarca por mil e uma noites e foi poupada da morte.

A história conta que, durante três anos, moças eram sacrificadas pelo rei, até que já não havia mais virgens no reino, e o vizir não sabia mais o que fazer para atender o desejo do rei. Foi quando uma de suas filhas, Sherazade, pediu-lhe que a levasse como noiva do rei, pois sabia um estratagema para escapar ao triste fim que a esperava. A princesa, após ser possuída pelo rei, começa a contar a extraordinária "História do Mercador e do Efrit", mas, antes que a manhã rompesse, ela parava seu relato, deixando um clima de suspense, só dando continuidade à narrativa na manhã seguinte. Assim, Sherazade conseguiu sobreviver, graças à sua palavra sábia e à curiosidade do rei. Ao fim desse tempo, ela já havia tido três filhos e, na milésima primeira noite, pede ao rei que a poupe, por amor às crianças. O rei finalmente responde que lhe perdoaria, sobretudo pela dignidade de Sherazade.

Fica então a metáfora traduzida por Sherazade: a liberdade se conquista com o exercício da criatividade.

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A Literatura Infantil


Afinal, o que é Literatura Infantil?

A designação infantil faz com que esta modalidade literária seja considerada "menor" por alguns, infelizmente.

Principalmente os educadores vivenciam de perto a evolução do maravilhoso ser que é a criança. O contato com textos recheados de encantamento faz-nos perceber quão importante e cheia de responsabilidade é toda forma de literatura.

A palavra literatura é intransitiva e, independente do adjetivo que receba, é arte e deleite. Sendo assim, o termo infantil associado à literatura não significa que ela tenha sido feita necessariamente para crianças. Na verdade, a literatura infantil acaba sendo aquela que corresponde, de alguma forma, aos anseios do leitor e que se identifique com ele.

A autêntica literatura infantil não deve ser feita essencialmente com intenção pedagógica, didática ou para incentivar hábito de leitura. Este tipo de texto deve ser produzido pela criança que há em cada um de nós. Assim o poder de cativar esse público tão exigente e importante aparece.

O grande segredo é trabalhar o imaginário e a fantasia. E como foi que tudo começou?